Meu nome é Luis Augusto Paim Rohde. Sou médico psiquiatra e professor, e dediquei minha vida profissional à compreensão da saúde mental de crianças e adolescentes. Desde o início da minha formação, percebi que os transtornos psiquiátricos que surgem na infância não são episódios isolados — são processos que acompanham o desenvolvimento humano e podem moldar trajetórias inteiras.
Foi essa percepção que orientou minhas escolhas acadêmicas. Decidi que minha carreira seria construída na interseção entre clínica, pesquisa epidemiológica e formação de novos profissionais. Não me interessava apenas tratar pacientes individualmente, mas compreender padrões, fatores de risco e mecanismos que explicassem por que alguns indivíduos desenvolvem transtornos persistentes enquanto outros seguem trajetórias adaptativas.
Minha formação e os primeiros anos
Formei-me em Medicina no Brasil e escolhi a Psiquiatria como especialidade. Desde cedo, concentrei meu interesse na psiquiatria da infância e adolescência. Realizei doutorado e estabeleci colaborações internacionais que ampliaram minha perspectiva sobre genética, neurobiologia e epidemiologia psiquiátrica.
Ao longo do tempo, percebi que o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) era um campo que exigia maior rigor científico no Brasil. Havia muitos mitos e poucas evidências nacionais robustas. Esse desafio se tornou um dos eixos centrais da minha carreira.
Minha trajetória institucional
Grande parte da minha vida acadêmica se desenvolveu na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Lá, tive a oportunidade de estruturar grupos de pesquisa e formar equipes multidisciplinares.
| Instituição | Função | Período |
|---|---|---|
| UFRGS | Professor Titular de Psiquiatria | 1990–presente |
| Hospital de Clínicas de Porto Alegre | Psiquiatra e Pesquisador | Carreira ativa |
| Consórcios Internacionais | Colaborador Científico | Diversos períodos |
Na UFRGS, ajudei a consolidar uma linha de pesquisa voltada para estudos longitudinais em psiquiatria do desenvolvimento. Sempre acreditei que acompanhar crianças ao longo do tempo é fundamental para entender o que é sintoma transitório e o que é trajetória persistente.
Minha produção científica
Ao longo da carreira, publiquei centenas de artigos científicos. Meu foco principal tem sido TDAH, impulsividade, fatores genéticos e ambientais e epidemiologia psiquiátrica.
Publicações Representativas
| Ano | Tema | Base | Link |
|---|---|---|---|
| 2005 | ADHD in developing countries | PubMed | PubMed |
| 2010 | Impulsividade e desfechos psiquiátricos | ScienceDirect | ScienceDirect |
| 2015 | Fatores genéticos e ambientais | ResearchGate | ResearchGate |
Sempre procurei integrar clínica e ciência. Para mim, o paciente individual e a amostra populacional são partes da mesma equação.
Estudos longitudinais e metodologia
Um dos pilares da minha carreira foi o investimento em estudos longitudinais. Acompanhar crianças e adolescentes ao longo dos anos nos permitiu identificar fatores de risco precoces, mecanismos de resiliência e padrões de persistência sintomática.
Aprendi que diagnóstico não é rótulo fixo. É um processo dinâmico que evolui com o desenvolvimento.
Colaborações internacionais
Minha trajetória também inclui colaborações com grupos de pesquisa na América do Norte e Europa. A ciência moderna é necessariamente colaborativa.
| País | Tipo de Parceria |
|---|---|
| Estados Unidos | Pesquisa em neurodesenvolvimento |
| Reino Unido | Estudos multicêntricos |
| Europa Continental | Consórcios científicos |
Essas experiências ampliaram minha compreensão das diferenças culturais no diagnóstico e tratamento.
Formação de pesquisadores
Ao longo da carreira, orientei inúmeros mestrados e doutorados. Para mim, formar novos cientistas é tão importante quanto publicar artigos. Uma linha de pesquisa só se consolida quando é capaz de gerar continuidade.
Procurei ensinar rigor metodológico, ética científica e compromisso com dados.
Minha visão sobre saúde mental no Brasil
Acredito que o Brasil avançou significativamente na psiquiatria do desenvolvimento, mas ainda enfrenta desafios estruturais. Precisamos ampliar acesso a diagnóstico precoce, reduzir estigma e integrar saúde mental às políticas educacionais.
Continuo trabalhando para que a pesquisa brasileira tenha impacto internacional, sem perder o foco nas necessidades locais.
Minha trajetória é marcada por uma convicção central: ciência sólida transforma prática clínica e, consequentemente, transforma vidas.
Minhas pesquisas: do TDAH à impulsividade e às interfaces com o comportamento de risco
Ao longo da minha carreira, concentrei grande parte dos meus esforços científicos na compreensão do TDAH e da impulsividade. Sempre acreditei que esses fenômenos não devem ser analisados apenas como categorias diagnósticas, mas como dimensões comportamentais que atravessam diferentes transtornos e diferentes fases da vida.
Quando estudamos TDAH, estamos lidando com muito mais do que desatenção ou hiperatividade. Estamos estudando autorregulação, tomada de decisão, controle inibitório e processamento de recompensa. Esses mesmos sistemas neurobiológicos estão implicados em diversos comportamentos de risco — incluindo uso de substâncias e, mais recentemente, envolvimento problemático com jogos e apostas.
Impulsividade como eixo central
Em vários estudos que coordenei ou dos quais participei, analisamos a impulsividade como fator preditor de desfechos psiquiátricos ao longo da vida. A impulsividade não é homogênea. Ela pode ser cognitiva, motora, emocional. Pode manifestar-se como dificuldade em adiar recompensas, como busca intensa por novidade ou como dificuldade em avaliar consequências futuras.
Essas características, quando presentes na infância, podem aumentar o risco de:
- Uso precoce de álcool e outras drogas
- Comportamentos antissociais
- Problemas acadêmicos persistentes
- Maior vulnerabilidade a padrões aditivos na vida adulta
Foi nesse contexto que comecei a observar uma interface natural entre meus estudos e o fenômeno do gambling.
A relação entre TDAH, impulsividade e gambling
Embora minha produção científica esteja majoritariamente centrada na psiquiatria do desenvolvimento, há uma convergência conceitual importante com o estudo do jogo patológico. Diversas pesquisas internacionais demonstram que indivíduos com histórico de TDAH apresentam maior risco de desenvolver comportamentos aditivos, incluindo dependência de jogo.
O sistema de recompensa cerebral — especialmente os circuitos dopaminérgicos — é altamente sensível à novidade e à recompensa intermitente. Jogos de azar e apostas online utilizam exatamente esse princípio: reforço variável, estímulos rápidos e feedback imediato.
Mecanismos Neurocomportamentais no Gambling
| Mecanismo | Descrição | Impacto em Indivíduos com Alta Impulsividade |
|---|---|---|
| Reforço Variável | Recompensas imprevisíveis em intervalos irregulares | Aumento da repetição compulsiva |
| Feedback Imediato | Resultado instantâneo após cada aposta | Redução da reflexão sobre consequências |
| Estímulo Visual e Sonoro | Sons e animações que reforçam ganhos | Potencialização do sistema dopaminérgico |
| Facilidade de Acesso Digital | Disponibilidade 24h via smartphone | Aumento da exposição contínua |
Em estudos longitudinais que acompanham crianças com TDAH até a vida adulta, observa-se maior probabilidade de envolvimento com:
- Comportamentos financeiros impulsivos
- Tomada de decisão arriscada
- Uso problemático de tecnologias
Embora eu não tenha dedicado minha carreira exclusivamente ao gambling, minha linha de pesquisa fornece base teórica sólida para compreender por que determinados perfis são mais vulneráveis a esse tipo de comportamento.
Neurodesenvolvimento e tomada de decisão
Outra dimensão importante da minha pesquisa envolve o desenvolvimento do córtex pré-frontal — área do cérebro responsável por planejamento, controle inibitório e avaliação de risco.
Sabemos que o córtex pré-frontal continua em desenvolvimento até o início da vida adulta. Isso significa que adolescentes e jovens adultos têm maior propensão a comportamentos impulsivos, especialmente em contextos de recompensa imediata.
No cenário atual, em que plataformas digitais de apostas estão amplamente acessíveis por smartphones, essa vulnerabilidade se torna ainda mais relevante. Jovens com dificuldades de autorregulação podem ser especialmente sensíveis a sistemas desenhados para estimular engajamento contínuo.
Estudos epidemiológicos e fatores ambientais
Além da dimensão neurobiológica, minhas pesquisas sempre consideraram o contexto ambiental. Fatores socioeconômicos, dinâmica familiar, exposição a estressores e modelos parentais influenciam significativamente trajetórias comportamentais.
Quando analisamos gambling sob essa lente, observamos que:
- Contextos de vulnerabilidade econômica podem aumentar a atratividade de ganhos rápidos
- Exposição precoce a jogos normaliza o comportamento
- Falta de educação financeira pode amplificar riscos
Esses elementos reforçam a importância de abordagens multidimensionais — não apenas focadas no indivíduo, mas também no ambiente.
Metodologia e rigor científico
Um dos pilares da minha atuação sempre foi o rigor metodológico. Estudos longitudinais, amostras representativas, instrumentos validados e análise estatística robusta são essenciais para evitar conclusões precipitadas.
No campo do gambling, isso é particularmente importante. Muitas vezes, debates públicos se baseiam em percepções isoladas ou em dados fragmentados. A experiência acumulada na pesquisa sobre TDAH e impulsividade mostra que somente estudos de longo prazo permitem compreender causalidade e trajetórias.
Contribuições para compreensão de risco ao longo da vida
Minha produção científica ajudou a consolidar a ideia de que transtornos psiquiátricos não são eventos isolados, mas partes de um continuum de desenvolvimento. Crianças com dificuldades de autorregulação podem evoluir para diferentes desfechos na adolescência e vida adulta, dependendo de fatores protetivos e intervenções precoces.
No contexto do gambling, isso significa que prevenção eficaz começa muito antes do primeiro contato com apostas. Começa na identificação precoce de dificuldades comportamentais, no suporte familiar e na educação emocional.
Formação de políticas baseadas em evidência
Embora minha atuação esteja mais concentrada na psiquiatria do desenvolvimento, compreendo que meus achados têm implicações diretas para políticas públicas mais amplas. Se sabemos que impulsividade e dificuldades de controle inibitório aumentam risco para comportamentos aditivos, então políticas regulatórias precisam considerar essas vulnerabilidades.
Isso inclui:
- Restrições de publicidade direcionada a jovens
- Mecanismos de verificação de idade eficazes
- Limites estruturais de uso em plataformas digitais
- Educação socioemocional nas escolas
Minha trajetória científica não se limita a um diagnóstico específico. Ela busca compreender como características do desenvolvimento interagem com ambientes contemporâneos complexos — incluindo o universo digital e o mercado de apostas.
Continuidade da pesquisa
Continuo envolvido em projetos que investigam trajetórias de desenvolvimento, fatores de risco e mecanismos neurobiológicos. O campo da psiquiatria evolui rapidamente, especialmente com avanços em genética e neuroimagem.
Vejo o estudo do gambling como uma extensão natural das pesquisas sobre impulsividade e autorregulação. Não como um campo isolado, mas como parte de um ecossistema comportamental mais amplo.
Minha convicção permanece a mesma desde o início da carreira: compreender profundamente os mecanismos do comportamento humano é o primeiro passo para intervenções mais eficazes e políticas públicas responsáveis.
Avanços recentes e perspectivas futuras na minha linha de pesquisa
Nos últimos anos, minha atuação científica tem se expandido para integrar novas tecnologias e metodologias avançadas. A psiquiatria do desenvolvimento não pode permanecer estática enquanto a ciência avança rapidamente em genética molecular, neuroimagem e análise de grandes bases de dados. Por isso, venho participando de projetos que utilizam abordagens multimodais — combinando dados clínicos, avaliações neuropsicológicas, marcadores biológicos e análises estatísticas sofisticadas.
A incorporação de estudos genéticos tem sido particularmente relevante. Hoje sabemos que transtornos como o TDAH possuem componente hereditário significativo, mas também envolvem interações complexas com fatores ambientais. Essa compreensão reforça a importância de intervenções precoces e personalizadas. Não existe uma trajetória única para todos os indivíduos; há múltiplos caminhos possíveis, influenciados por fatores biológicos e contextuais.
Outro eixo que tem ganhado destaque em minhas pesquisas é a saúde mental na transição da adolescência para a vida adulta. Esse período é especialmente sensível, pois envolve aumento de autonomia, exposição a novos ambientes e maior contato com comportamentos de risco. Nessa fase, características como impulsividade e busca por novidade podem se intensificar, aumentando vulnerabilidades já existentes.
Também tenho me dedicado a investigar como fatores educacionais e familiares funcionam como elementos de proteção. Relações familiares estruturadas, suporte emocional consistente e ambiente escolar favorável podem reduzir significativamente a probabilidade de desfechos negativos, mesmo em indivíduos com predisposição biológica. Essa visão integrada — que combina genética, ambiente e desenvolvimento — orienta grande parte da minha produção científica atual.
Além disso, considero fundamental aproximar a pesquisa da prática clínica cotidiana. Muitas vezes, há uma distância entre o conhecimento produzido em artigos científicos e sua aplicação no atendimento de pacientes. Procuro constantemente reduzir essa lacuna, promovendo formação continuada, participação em congressos e desenvolvimento de diretrizes clínicas baseadas em evidência.
O cenário contemporâneo apresenta novos desafios, como o impacto das tecnologias digitais, redes sociais e plataformas de entretenimento altamente estimulantes. Essas mudanças exigem que a psiquiatria do desenvolvimento amplie seu escopo e analise como ambientes digitais interagem com características individuais. A compreensão desses fenômenos é essencial para desenvolver estratégias preventivas eficazes.
Continuo comprometido com a produção de ciência rigorosa, colaborativa e socialmente relevante. Acredito que o avanço do conhecimento em saúde mental depende da integração entre pesquisa de qualidade, formação de novos profissionais e diálogo constante com a sociedade. Minha trajetória segue orientada por esse princípio: compreender o desenvolvimento humano em sua complexidade para promover intervenções mais precisas e políticas públicas mais eficazes.


